Muito mais que um esporte
Amigos do “O Quarterback”, pensavam que tinham se livrado de mim? Na-na-ni-na-não!
Voltei e, aproveitando clima de campanha eleitoral na terra do Tio Sam, decidi falar de um assunto que cada vez mais me fascina: a importância do futebol americano na cultura, no folclore e até na política dos Estados Unidos.
“Porra, Mancha... Política? Folclore? Isso é tão sem graça quanto o ataque do Atlanta...”, devem estar dizendo vocês (exceto os Falcon fans... ou até eles, pensando bem!). Sem pânico, gente. Esqueçam Obama, McCain, Maluf, Saci Pererê e companhia... É mais bacana do que parece.
Eu já pensava em falar sobre isso havia algum tempo, mas tomei coragem hoje ao ver na TV a cabo um filme chamado “Capital City” (2004), estrelado pelo Kyle Chandler (por acaso, o treinador Eric Taylor, de Friday Night Lights...). É um filme sobre bastidores da política em Washington – nada a ver com esportes. Mas com tantas referências a futebol americano que me manteve ligado! Isso salvou o enredo, que era bem ruinzinho...
Esse filme não é uma exceção. Se você puxar pela memória, vai cansar de lembrar de cenas de séries ou longas em que alguém diz algo do tipo: “... Meu filho é o quarterback do time...” (ou “quarto-zagueiro”, como irritantemente os tradutores preguiçosos preferem colocar – argggggghhh!!!).
Consultando o link da Wikipédia (tá, eu sei que é tosca, mas serve...) a respeito de “Folclore”, vejam que interessante a lista de “Ícones e Arquétipos Culturais dos Estados Unidos” que nela consta:
· Cowboys
· Entrepreneurs
· Gangsters
· Hippies
· Hillbillies
· Juvenile delinquents
· Prospectors
· Quarterbacks
· Rednecks
Tá bom, vocês querem uma referência mais “séria”. Lá vai: “Understanding Global Cultures”. Esse é o nome de um livro do sociólogo Martin J. Gannon, da Califórnia State University. E ali há um capítulo inteiro sobre futebol americano (clique aqui para ver). Sim, futebol americano num livro de Sociologia. Gannon afirma que é plenamente possível explicar a cultura e os valores norte americanos usando metaforicamente o esporte. Genial!

O livro M. Gannon: Sociologia e Futebol Americano juntos!
A verdade é essa: o futebol americano é muito mais que um esporte para quem mora nos Estados Unidos. Ele sintetiza a cabeça do americano. A ficha caiu para mim há uns quatro anos, quando recebi um telefonema aflito de um colega jornalista que trabalhava na Globo Livros:
- Paulo, preciso da sua ajuda, cara... Estamos com uma baita dificuldade para traduzir o livro do... Bill Clinton...
Nesse momento, eu pensei: “Bill Clinton??? O que eu posso saber sobre o Bill Clinton? Ah! Já sei! É porque eu fumo charutos... Acho que eles querem saber a marca daquele havano que enfiou na ...” E antes que minha mente suja continuasse, o colega jornalista completou:
- O nosso problema é um capítulo inteiro em que ele fala de futebol americano... Não estamos entendendo nada!!!
E assim acabei traduzindo para eles (sem ganhar crédito, nem um exemplarzinho...) o capítulo em que o ex-presidente americano tece considerações sobre Richard Nixon aproveitando-se de uma partida de College Football.

Bill Clinton: futebol americano até na autobiografia
Para quem se interessa por esse assunto, não falta o que ver. O mais ousado e genial comandante americano da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, revolucionou o combate com blindados ao usar táticas de futebol americano. Estou falando do General Patton, que na época da universidade era left tackle. Durante a reconquista da Europa pelos aliados, ele sempre dizia que sua infantaria era a “linha ofensiva de um time de football”. Ela partia em ataque frontal, segurando o inimigo bem no centro da frente de combate. Já os tanques eram os “wide receivers”, que se infiltravam profundamente pelas laterais. No momento certo, o “quarterback” (ele mesmo, General Patton) dava o sinal para que os blindados fizessem um corte para o centro e atacassem o inimigo pela retaguarda. Touchdown! Patton 6 x 0 Nazistada ...

General Patton: tática de football contra os nazistas
Mas talvez nenhum fato mostre tão bem o poder do futebol americano quanto o caso de Dallas. O assassinato do presidente John Kennedy, em 1963, colocou sobre essa cidade texana um estigma aparentemente eterno. Na cabeça do americano médio, Dallas passou a significa “o lugar onde mataram nosso líder”, “o palco de um assassinato horrível”, “o cenário da maior infâmia dos Estados Unidos. Nada mudava essa triste pecha.
A mancha (nenhum parentesco comigo!) resistiu por toda as décadas de 1960, 70 e 80. No entanto, quando Troy Aikman, Michael Irvin e Emmitt Smith levaram o time da cidade a conquistar 3 Super Bowls, no começo dos anos 1990, a coisa mudou de figura. Pela primeira vez desde 1963, as pesquisas de opinião pública mostravam respostas diferentes. “O que Dallas lhe lembra?”. Nada de morte, nada de desgraça, nada de tristeza. Para a maioria das pessoas, cidade do Texas agora lembrava “os Cowboys”. O lugar passou a ser sinônimo de futebol americano. Bom futebol americano.
Cheers!
Paulo Mancha é jornalista, comentarista da NFL no BandSports e músico. Possui, em parceria com Sílvio Santos Júnior, o videoblog Football Funny Stuff (www.futebolamericano.net) e é vocalista da banda Tubaína (www.tubaina.com.br).
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